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Julho de 2014, Chiado Editora

Esmeralda odiava ser fotografada. Posar com a família para o fotógrafo era o seu maior pesadelo de infância. O que terá acontecido, então, para que um dia em Marrocos, logo após ter abandonado Portugal, descubra a sua vocação, a Fotografia?

Pulpit rock

Esmeralda odiava ser fotografada. Posar com a família para o fotógrafo era o seu maior pesadelo de infância. O que terá acontecido, então, para que um dia em Marrocos, logo após ter abandonado Portugal, descubra a sua vocação, a Fotografia? Esta revelação conduz Esmeralda a uma existência nómada, que a afasta por muito tempo das suas origens. Por entre viagens, encontros, amores e projectos de livros, torna-se uma fotógrafa célebre, representada em exposições internacionais.

Em 2003, quinze anos depois de ter deixado o país, Esmeralda vê-se obrigada a regressar a Portugal para tratar de partilhas. O reencontro com a família, os amigos de infância e o ex-marido levam-na a confrontar-se com dramas e conflitos passados que darão à sua vida um rumo inesperado.

Cristina Meneses

Li o romance, de um fôlego só, talvez com o fôlego que a escrita, também de fôlego, me exigiu. Gostei. Gostei muito, porque a leitura se me apresentou um pouco tensa, na busca de pedaços de uma vida que não me era de todo estranha, nem de todo conhecida.

Gostei das linhas que conduzem o romance: a história de família, a história de amores e amizades, a história de um país refletida por um narrador que sabe pensar, as histórias de viagens diferentes das que nos vendem diariamente.

Gostei, porque fui sensível ao desejo de fuga de Esmeralda, - somos sempre sensíveis aos desejos com que nos identificamos e com aqueles que nada têm a ver connosco! -, e à sua fobia em ser fotografada, e à forma como essa sua fobia lhe permitiu ser outra. Gostei muito. Por muitas outras razões!

João Canijo

Há livros que se lêem como se se estivesse a espreitar a vida do escritor, e este é o caso de Esmeralda odiava ser fotografada. Uma amiga minha sempre disse que os bons livros servem para conhecer os seus escritores.

O livro é um retrato de família, um retrato do passado da família de Esmeralda, as marcas que a família deixa e das quais não há libertação possível. A personalidade de Esmeralda imagina-se formada por reacção à família, por necessidade de defesa e afirmação da sua individualidade. A sua rebeldia e impulsividade, que a vão caracterizar vida fora, nascem na casa grande da família grande por instinto de sobrevivência.

Uma vida que fica sem concerto por causa de acidentes irremediáveis, independentes da vontade e desejo da personagem, como numa tragédia grega. É o erro involuntário que provoca a tragédia, a acção que revela a personagem, e estrutura o drama, é uma fuga impulsiva.

É na caracterização dos personagens, difícil de conseguir num livro epistolar, que se revela a singularidade da obra, porque é feita através da diferença de estilos na escrita das cartas dos diferentes personagens. Os estilos de cada um são muito distintos e nítidos.

A leitura é absorvente por ser uma viagem à intimidade de Esmeralda e dos personagens da sua vida.

Não pode de deixar de fazer imaginar uma autobiografia, porque se lê como uma autobiografia. Mesmo que seja uma biografia sonhada não deixa de revelar uma das almas de Conceição, e é isso que torna a leitura viciante. Como os bons actores que nunca deixam de ser eles mesmos.

Isabel Cristina Mateus

Diria que Esmeralda odiava ser fotografada é, antes de mais, um retrato, ou talvez melhor, um auto-retrato, uma (auto)biografia. O retrato familiar, o retrato histórico e social, o retrato cultural ou multicultural, o retrato europeu, sem esquecer o retrato como género fotográfico.

Construído a partir de fotografias saídas ao acaso dos gavetões da memória e de cartas trocadas com Vera e Luís (mas também com Mário, o marido), o relato de Esmeralda constitui um precioso documento histórico e social sobre “um país a sofrer de giocondite crónica, de quilómetros de sorrisos falsos e de brandos costumes envenenados” .

Constitui igualmente a narrativa fotográfica de uma geração libertária e rebelde que atravessa os tempos febris de 68 e da Revolução de Abril, assiste à abertura ao espaço europeu e ao mundo global, ao advento da era digital, ao discurso identitário em contexto multicultural, patente no olhar europeu de Esmeralda (como de Roberto e Giancarlo) sobre o mundo árabe, tecnologicamente puro, mas também no olhar de Vera sobre o continente africano.

Nesta perspectiva, o romance representa um olhar lúcido e crítico, irónico, por vezes, sobre o mundo contemporâneo, um mundo marcado pela descrença que fez da máquina digital um deus particular e portátil, uma forma de imortalização do efémero.

Não se pense, contudo, que Esmeralda cederá à descrença ou à tentação da nostalgia. O tempo de Esmeralda é o futuro, visto em perspectiva, a partir do presente. Ou não fosse o seu, um olhar de fotógrafa.

Mais do que um percurso de aprendizagem, Esmeralda é ela própria uma lição de vida que não pode deixar o leitor indiferente.

Fernanda Campos

Estamos perante uma fotógrafa viajada e célebre, Esmeralda, depositária de histórias e memórias, de vivências e testemunhos, e que desafia o leitor a mergulhar no caleidoscópio que é mundo fixado em fotografias.

Pese embora o facto de a protagonista ser fotógrafa, para quem o olhar é central, não deixa de ser desafiante notar o papel dos outros sentidos gravados de forma indelével na memória das palavras com que vai urdindo a textura psicológica própria e das personagens em que se desdobra. Como o leitor descobrirá, a ocular da fotógrafa também possui cheiro, o cheiro acre dos espaços desabitados e dos socalcos maduros do Douro, o odor intenso e inebriante de África, mas sobretudo a fragrância da patine dos velhos monumentos, das caixas e dos armários que guardam segredos e flores murchas.

Na carta que escreve a Esmeralda, em 20/2/2003, Luís transcreve do Diário Fotográfico de um (Des)Crente ( obra da autoria de Esmeralda) o seguinte trecho que espelha com lucidez um dos passatempos do modus vivendi moderno: "Será que disparar flashs em todas as direções se tornou a única possibilidade de aventura que nos resta? A aventura vertiginosa face a um apocalipse iminente? O tempo escasseia. (...) Urge seguir a rota [da tribo, direi eu], célere, sem o desperdício de uma pausa”. É contra esta armadilha sem alternativas, de um tempo e de um espaço da urgência e do inevitável que voz de Esmeralda se ergue.

Impelida pelos temas e contratemas, em ritornelos, semelhantes ao pulsar do coração da humanidade, ora piano, piano, ora apaixonadamente vibrante, metálica, telúrica, ou desesperadamente melancólica, Esmeralda arrasta-nos para a vertigem da polifonia épica e trágica que modula a existência humana.

Cristina Álvares

O romance da Conceição Carrilho é um romance sobre o mundo, o nosso, o da nossa geração, pois abarca um espaço de tempo que vai desde o final da década de 50 até aos nossos dias.

O romance não é todo epistolar. A 1ª parte do romance não é composta por cartas. É uma narrativa na 1ª pessoa, própria do romance autobiográfico.

Este romance insere-se na tradição literária do motivo ou da figura da fugitiva, da mulher que foge, que abandona a sua vida, a sua rotina. No caso dela, fugir coincide com tornar-se fotógrafa. O que é uma grande transformação, uma grande viragem na sua vida, pois Esmeralda odiava ser fotografada. As cartas vão esclarecendo este enigma: como é que alguém que odiava ser fotografada se torna fotógrafa – como se processou, em que circunstâncias, esta passagem do ódio ao amor.

Ora, uma das coisas que mais me interessou neste romance é a tematização da fotografia, as reflexões que a fotografia suscita à autora; e também a dramatização da fotografia, a função ou funções que ela tem na história. Há no romance reflexões sobre a fotografia e há também ações que são narradas e que são outras tantas reflexões indiretas sobre a fotografia.

O retrato de família consagra a pertença ao grupo familiar. ‘Consagra’ é aqui a entender no sentido literal do termo já que o álbum de fotos da família é sagrado, é aquilo que nenhuma fuga, nenhum nomadismo, nenhuma mutação subjetiva consegue mudar, o que fica como Coisa, inalterável, sempre o mesmo.

A fotografia significa portanto obediência, pertença, identidade ... e moldura. A fotografia é a vida suspensa e emoldurada, tudo aquilo de que Esmeralda quer fugir porque anseia pela liberdade e a liberdade é a agitação da vida, a vida real, imprevisível, a desordem, a barafunda.

Carta de Esmeralda a Vera ( ver-se ao espelho e ver-se numa fotografia):

Por mais banal que a fotografia se tenha tornado, face à câmara é sempre a primeira vez. Cada um de nós pensa na fotografia como um espelho e deste equívoco nasce o desconforto e a indignação do retrato fotográfico. Tens ideia, Vera, do número de vezes que nos olhamos ao espelho num só dia? Não sabemos, não conseguimos contar, sequer. Para além dos momentos mais demorados da toilette diária, o acordar e o deitar, contemplamo-nos a toda a hora, a todo o instante, de forma automática, incapazes, ao fim do dia, de contabilizarmos estes permanentes encontros.

Agora pergunto-te: alguma vez o fazemos sem um gesto de aperfeiçoamento, um toque no cabelo, um retoque nos lábios, um jeito no casaco, umas palmadas na cara para avivar a cor? Ao contemplarmo-nos no espelho, brota, de forma imediata, o imperativo de um melhoramento. A imagem observada no espelho é por natureza inacabada, objecto à nossa disposição para ser moldado, retocado, alterado!

Ao espelho podemos contornar as linhas do destino. Mas o retrato fotográfico priva-nos desta possibilidade, inviabiliza o gesto natural da nossa sobrevivência como espécie: a crença no futuro. Daqui nasce a indignação, se não corresponde às nossas expectativas: vermos na fotografia o que no espelho pode ser efémero. Fixos e imóveis, os traços sem a mínima possibilidade de alteração.

Carta de Esmeralda a Mário ( fotografia e nomadismo): 

O prazer do movimento contribuiu, de forma decisiva, para a minha nova vida. Havia uma embriaguez no acto de fotografar, uma euforia em ver o mundo “pela primeira vez”. Aquele não era de certeza o momento certo para mergulhar em ideias, livros e reflexões, para descobrir e analisar diferenças culturais. Do que eu precisava era deixar-me conduzir, largar por uns tempos o banco do condutor.

Que melhor actividade do que a fotografia? Descobria o prazer de me deixar guiar e, talvez ainda mais aliciante, a ilusão das primeiras nuances entrevistas pelo recém-nascido. Um mundo novo a cada fotografia! Antes das ideias, mãos, olhos, bocas, gestos. Não é esta sensação o que mais fascina na actividade fotográfica? Encontrarmos na superfície uma profundidade oceânica e na derme o mesmo infinito da epiderme. Na tarde em que deixei o laboratório de fotografia, vi o mundo “pela primeira vez”. E gostei, muito. Guiada pelo presente, o meu nomadismo fotográfico impregnou-me o sangue, as veias, acelerou o bater do coração, acordou-me, incansável, madrugada após madrugada.

Carta de Esmeralda a Vera ( sobre Portugal):

Este país pouco mudou, ma chère, muito salamaleque, muita espinhela vergada, muito beija mão, muita atenção aos pergaminhos e um esmero especial em disfarçarem a burrice com belas albardas. Um país a sofrer de uma Gioncodite crónica, quilómetros de sorrisos falsos e brandos costumes envenenados.

Carta de Vera a Esmeralda ( paixão, para as sentimentais):  

Equivale a declarações, bilhetinhos, prendas de aniversário acompanhadas, se possível, de uma viagem ou de um jantar à luz das velas. Mas quando depois do jantar se correm as cortinas do quarto, descobrimos que estamos enfastiadas. O prazer anda por ali, mas aos tombos, às cabeçadas pelos cantos do quarto! Incapazes de o agarrarmos, refreamos os bocejos não por pena dele, mas por culpa e pela certeza dos sonhos de amor eterno se terem enrodilhado para todo o sempre por entre as pregas dos lençóis amarrotados. A vida, um leque promissor de tanta felicidade, reduzida, afinal, a abrir a cada noite mais uma vara esburacada! Preciso de te confessar outra coisa, Esmeralda: nascida antiga, quando corro as cortinas do quarto é o terror absoluto. Ainda não acabei de me virar na direcção da cama e já me vejo decomposta, o meu corpo a deixar restos pelo caminho e eu sem saber como apanhar os bocados caídos pelo chão! Os escassos metros que distam da janela à cama transformados em quilómetros de suor e vergonha

Carta de Luis a Esmeralda (sobre o casamento): 

É isto mesmo, o casamento: uma gravata cujo nó se vai apertando dia a dia. Quando chegamos ao ponto de termos de gritar por socorro, abafamos o grito apavorados com o espectáculo que estamos a dar ao mundo! Convencêmo-lo durante tantos anos da nossa perfeição de gentlemen exímios em nós de gravata para agora nos descobrirem a boçalidade de labregos em nós feitos à pressa? Trememos de medo que nos descubram a careca, que vejam em nós uns miseráveis portadores de capachinhos (vai um desenho) e ficamos de rastos só de imaginarmos as justificações a dar. Balbuciar que a gravata era esquisita e os nós ameaçavam sufocar-nos, ainda vá! Mas como convencermos o mundo da nossa impostura de anos a fio com um capachinho?

Versão em Papel:

Publicado pela Chiado Editora em Julho de 2014.

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Versão eBook:

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