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Swift

Relógio d’Água, Tradução: Luzia Maria Martins.

Com a distância de apenas sete anos, o xéculo XVIII assiste ao nascimento de dois grandes romances de viagens imaginárias: O Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, em 1719, e As Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift, em 1726.
São obras muito diferentes. O Robinson Crusoé é (entre muitas outras temáticas), uma exposição do engenho e da racionalidade humanas, capazes de fazerem sobreviver um náufrago numa ilha deserta durante 28 anos; é, também, uma ilustração do mito do Bom Selvagem, tão caro ao pensamento iluminista.

swiftAs Viagens de Gulliver utilizam a viagem imaginária não já, como no caso de Defoe, para analisar a natureza humana numa situação “extrema” (não totalmente extrema já que a ilha habitada por Robinson é um paraíso, onde ele acabará por se sentir como um Deus)- mas para denunciar o género humano, responsável da corrupção e decadência sociais. São, assim, uma sátira impiedosa do mundo político, subjugado por vícios de toda a ordem.
Mas se As Viagens de Gulliver não fossem mais do que uma sátira negra, teriam caído, muito cedo, no reino do esquecimento. Onde Swift se impõe como um verdadeiro criador de um género, é na sua capacidade visionária. Discípulo de Rabelais, a sua verve criadora, delirante, surrealista, grotesca e profundamente hilariante, faz da leitura deste livro, de uma actualidade surpreendente, um prazer inegualável.
Visitas a países de cientistas loucos, de homens que ressuscitam mortos, que têm, no seu reino, imortais, visitas ao mundo dos terríficos macacos yahoos e dos maravilhosos cavalos, o relato destas viagens vai de surpresa em surpresa, de imagem em imagem, pois Swift é, sobretudo, um genial criador de imagens.

Para aguçar o apetite do leitor que ainda não se aventurou na Grande Aventura da leitura desta obra , eis duas deliciosas passagens do livro:

Quando visita Lagado, depara com uma prática muito interessante: como é habitual os ministros esqueceram as suas responsabilidades, um secretário estava encarregue de, no final das reuniões de Estado, lhe dar uma puxadela no nariz, um pontapé no ventre, uma piscadela nos calos, três puxadelas de orelhas, espetar um alfinete nos calções ou beliscar violentamente o braço, a fim de evitar esquecimentos.

No reino dos LIliputianos deparou, também, com uma prática assaz interessante: as pessoas que se candidatam a cargos de maior responsabilidade têm de provar saber dançar na corda bamba, execuntando a sua dança numa linha fraca, branca, esticada a uma altura de dois pés e doze polegadas do chão. Diz o autor que se treinam desde a juventude nesta arte, não precisando de ser nobres por nascimento ou ter ensino superior. Quem saltar mais alto sem cair obtém o lugar a que aspira.

E estas saõ, apenas, umas breves passagens de um Grande livro.