GAL

Maupassant ( 1850-1893 )

maupassant

O Bigode

Este conto foi publicado no jornal Gil Blas a 31 de Julho de 1883, com o pseudónimo de Maufrigneuse.

Conhecer Maupassant em língua portuguesa: Contos Escolhidos, Ed D.Quixote, Tradução de Pedro Tamen, 2011.

Esta edição está dividida em três partes: 1.Contos mundanos, amorosos, eróticos e galantes; 2.Contos inquietantes, de horror e de mistério; 3. Contos exemplares.

No capítulo 3, podemos ler o conto que lançou, em 1880, Maupassant: Bola de sebo ( Boule de suif), um conto absolutamente maravilhoso, que narra as aventuras de uma prostituta numa viagem de diligência durante a Guerra Franco-Prussiana, em 1870. O espaço fechado de uma diligência num cenário conturbado de Guerra, onde se junta uma série de pessoas de classe, profissão e idades diferentes, eis o cenário ideal para um estudo minucioso dos comportamentos e relações humanas.

Quem começar por este conto não poderá deixar de ler mais e mais Maupassant, um dos contistas do século XIX, que, com Tchékhov, abordou todas as temáticas- ódios profundos, erotismo, mundanismo, vinganças, loucura, ambição, guerra- como uma mestria que faz dele um revigorante contemporâneo.

Televisão e cinema: Os contos de Maupassant têm inspirado muitas séries televisivas e, mais recentemente, um dos seus romances Bel Ami, foi estreado no cinema. Uma estreia de Robert Pattinson, com, entre outros, Uma Turman, Kristin Scott-Thomas, Cristina Ricci.

 

 

O Bigode ( La moustache)  Guy de Maupassant
Tradução: Conceição Carrilho (da edição Toine et autres nouvelles, Col Folio classique, Gallimard, 1991, Ed de Louis Forestier; as notas seguem também a edição de Louis Forestier).
Novembro 2013, para o GAL ( Gabinete de Aconselhamento Literário).

 
Castelo de Solles, segunda-feira, 30 de Julho de 1883

Minha querida Lúcia, nada de novo. Vivemos no salão olhando a chuva a cair. Não podemos sair com um tempo horrível como este; então, representamos comédias. Como são parvas, minha querida, as peças de salão do reportório actual. Tudo nelas parece forçado, grosseiro, pesado. As piadas acertam no alvo como bolas de canhão, destruindo tudo sem discernimento.

Nenhum espírito, nenhuma naturalidade, nenhum sentido de humor, nenhuma elegância. Francamente, estes homens de letras não sabem nada do mundo. Ignoram completamente a nossa forma de pensar e de falar. Podia admitir perfeitamente que desprezassem os nossos hábitos, convenções e maneiras, mas não admito que as desconheçam.

Para se armarem em finos, fazem jogos de palavras que seriam bons para animar uma caserna; para se fazerem de engraçadinhos, servem-nos ditos de espírito que devem ter apanhado no alto do boulevard exterior, naquelas cervejarias de artistas onde se repetem, desde há cinquenta anos, os mesmos paradoxos de estudantes.

Enfim, representamos comédias. Como somos, apenas, duas mulheres, o meu marido faz de empregada e por isso teve de cortar o bigode.

Não imaginas, minha querida Lúcia, como fica mudado! Não o reconheço nem de dia nem de noite. Desagrada-me tanto vê-lo assim, que se não deixar crescer imediatamente o bigode, creio que lhe serei infiel.

A sério, um homem sem bigode não é um homem. Não gosto muito da barba, dá quase sempre um ar desleixado, mas o bigode, oh, o bigode! É indispensável a uma fisionomia viril. Não, nunca tinha imaginado como esta pequena escova de pelos sobre o lábio é útil ao olho e… às relações entre os esposos. Sobre esta matéria vieram-me ao espírito uma série de ideias que nem ouso escrever-te. Depois digo-tas de bom grado, baixinho. Mas para exprimirmos certas coisas é tão difícil encontrar as palavras, e algumas delas, que não podemos trocar, fazem no papel uma tão má figura, que não as posso escrever. E depois, o assunto é tão difícil, tão delicado, tão melindroso, que seria necessária uma ciência infinita para o abordar sem perigo.

Enfim! Paciência, se não entendes! E depois, minha querida, tenta um pouco de ler entre linhas.

Sim, quando o meu marido me apareceu sem bigode, compreendi logo que não teria nunca um fraquinho por um cabotino, nem por um pregador, fosse ele o Pai Didon, o mais sedutor de todos! Depois, quando me encontrei, mais tarde, sozinha com ele (o meu marido) foi bem pior. Oh! Minha querida Lúcia, nunca deixes que um homem sem bigode te beije; estes beijos não têm nenhum sabor, nenhum, nenhum! Não têm nenhum charme, aquela macieza e aquele apimentado do verdadeiro beijo. O bigode é a pimenta do beijo.

Imagina que te aplicam sobre o lábio um pergaminho seco… ou húmido. Eis a carícia de um homem sem bigode. Não vale de todo a pena.

De onde vem a sedução do bigode, perguntarás tu?

Sei lá! Antes de mais, faz cócegas de um forma deliciosa. Sentimo-las antes da boca e faz passar um arrepio delicioso em todo o corpo, até à ponta dos pés. É o bigode que faz a carícia, que faz tremer e estremecer a pele, que dá aos nervos a vibração deliciosa que faz soltar pequenos ahs, como se tivéssemos frio.
E no pescoço! Sim, já sentiste um bigode no pescoço? Embebeda, entontece, desce pelas costas, corre pelas pontas dos dedos. Torcemo-nos, sacudimos os ombros, viramos cabeça e gostaríamos de fugir e de ficar; é adorável e irritante! Mas como é bom!

E depois ainda, bem, será que me atrevo? Um marido que nos ama, mas ama mesmo, deveras, ab, sabe encontrar uma série de pequenos cantos onde pode posar os seus beijos, pequenos cantos que nós sozinhas não descobriríamos. Pois bem, sem o bigode, esses beijos perdem muito do sabor, sem falar que se tornam inconvenientes! Explica isto como quiseres. Quanto a mim, eis a razão que encontrei. Um lábio sem bigode está nu como um corpo sem roupa; e é preciso sempre roupa, muito pouca, se quiseres, mas é necessária alguma!

O criador (não ouso utilizar outra palavra para falar destas coisas), o criador teve o cuidado de tapar todas os abrigos da nossa carne onde o amor se deve esconder. Uma boca sem bigode faz-me lembrar um bosque cortado à volta de uma fonte onde íamos beber e dormir.

Isto lembra-me uma frase (de um homem político) que me anda na cabeça desde há três meses. O meu marido que, segue os jornais, leu-me, uma noite, um discurso bem singular do nosso ministro da Agricultura, que nessa altura se chamava Senhor Meline. Terá sido substituído por outro? Ignoro-o.

Não escutava o meu marido, mas aquele nome, Meline, chamou-me a atenção. Lembrou-me, não sei porquê, cenas de vida boémia. Pensei que se tratava de uma dessas empregadas de fábrica de alta costura.

Eis como alguns bocados dessa passagem me entraram na cabeça. O Senhor Meline fazia então aos habitants de Amiens, creio, a seguinte declaração, cujo sentido eu procurei até hoje: “Não há patriotismo sem agricultura!”. Pois bem, o sentido desta frase encontrei-o agora mesmo. E declaro-te, pela minha vez, que não há amor sem bigodes.

Quando o afirmamos assim, parece cómico, não é?

Não há amor sem bigodes!

“Não há patriotismo sem Agricultura” afirmava o senhor Méline; e tinha razão, este ministro, só agora o entendo!

Sob um outro ponto de vista o bigode é essencial. Ele determina a fisionomia. Dá um ar doce, terno, violento, de bicho papão, festivo, decidido! O homem com barba, verdadeiramente barbudo, o que mostra todo o seu pelo nas faces (oh, que expressão ingrata), tendo os traços escondidos, nunca mostra a fineza do rosto. E a forma do maxilar e do queixo diz muitas coisas, para quem sabe ver.

O homem com bigode mantêm a sua elegância e o seu próprio estilo, ao mesmo tempo.

E quantos aspectos variados eles têm, estes bigodes! Ora são arrebitados, frisados, vaidosos e parecem gostar das mulheres acima de tudo.

Ora são pontiagudos, afiados como agulhas, ameaçadores. Estes preferem o vinho, os cavalos e as batalhas.

Ora são enormes, caídos, assustadores. Grossos, estes, dissimulam geralmente um carácter excelente, uma bondade que sugere uma fraqueza e uma doçura que pode passar por timidez.

E depois, o que eu gosto mesmo no bigode, é que ele é francês, bem francês. Herdámo-lo dos nossos pais gauleses, e permaneceu o sinal do nosso carácter nacional.

O bigode é conversador, galante e corajoso. Molha-se gentilmente no vinho e sabe rir com elegância, enquanto os largos maxilares barbudos são pesados em tudo o que fazem.

Olha, estou a lembrar-me de uma coisa que me fez chorar imenso e que também me fez, apercebo-me agora, amar os bigodes nos lábios dos homens.

Foi durante a Guerra, em casa do papá. Eu era uma rapariga, na altura. Um dia lutava-se perto do castelo. Tinha ouvido desde manhã os canhões e o tiroteio e à noite o coronel alemão entrou em nossa casa e instalou-se. Depois, partiu no dia seguinte de manhã. Vieram avisar o meu pai de que havia muitos mortos nos campos. O meu pai pediu para os juntarem e trazerem-nos para o castelo para serem enterrados juntos. À medida que os traziam, deitavam-nos ao longo da avenida dos pinheiros, dos dois lados; e como começavam a cheirar mal, deitavam terra sobre os corpos enquanto esperavam que se abrisse uma fossa. Desta maneira só se viam as cabeças que pareciam sair do solo, da mesma cor amarela, com os olhos fechados.

Quis vê-los; mas quando me apercebi das duas grandes linhas de figuras horríveis, pensei que me ia sentir mal; depois, comecei a examiná-las, uma a uma, procurando adivinhar quem tinham sido aqueles homens.

Os uniformes estavam enterrados, escondidos sob a terra, e no entanto, de repente, ojh, minha querida, de repente reconheci os franceses pelo bigode!
Alguns tinham aparado o bigode no dia do combate, como se tivessem querido ficar bonitos até ao último instante! A barba tinha crescido um pouco, pois deves saber que esta cresce ainda depois da morte. Outros pareciam ter uma barba de oito dias; mas todos tinham um bigode francês, bem nítido, o orgulhoso bigode, que parecia dizer: “não me confundas com o meu amigo barbudo, pequena, eu sou um irmão”.

E chorei, oh! Chorei bem mais do que se não os tivesse reconhecido neste estado, estes pobres mortos.

Fiz mal em te contar isto. Eis-me agora triste e incapaz de conversar por mais tempo.

Vamos, adeus, minha querida Lúcia, beijo-te de todo o coração.

Viva o bigode!

Jeanne