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Ovídio (Metamorfoses)

metamorfosesAs METAMORFOSES de OVÍDIO (Cotovia, 2007, Tradução de Paulo Farmhouse Alberto), são a Bíblia mitológica da cultura Ocidental.
São, também, como o título sugere, um tratado das paixões humanas. Pois é sob o efeito das paixões que o homem se transforma: em besta, demónio, anjo, guerreiro, animal, planta, seja o que for.

Enquanto história das paixões humanas e das suas metamorfoses, é um tratado sobre os sentidos. Narciso é um mito da visão, o nosso sentido número um.
Mas os seres humanos são regulados por outros sentidos e, por isso, raramente os mitos estão sujeitos apenas a um deles.
É o caso de NARCISO, inseparável de um outro sentido: a Audição, representado pela ninfa ECO, que no mito de Narciso detém um papel fundamental.
Eco é uma ninfa extremamente infeliz, já que foi por duas vezes castigada. Da primeira vez, por Juno ( Hera, na mitologia grega). Juno, com ciúmes de Zeus que ela sabia andar a cortejar as ninfas, decide espiá- lo. Eco, a ninfa tagarela, de forma a desviar a sua atenção, entretém-na com a sua tagarelice, conseguindo que Juno nada descubra. Quando Juno se apercebe da artimanha de Eco, decide puni-la: condena-a, então, a repetir as últimas palavras.
Um dia, andando Eco a passear pelos bosques, avista Narciso que se tinha perdido dos amigos durante um passeio. Ao vê-lo, enflama-se de amor e segue-o. Narciso, ao ver-se sozinho e sem os amigos, grita por eles, palavras que são repetidas pela ninfa Eco. Narciso fica confuso, pois não percebe de onde vêem as palavras. Quando ele grita: “Anda para aqui, vamos”, grito que destina a um dos amigos, Eco, julgando que estas palavras lhe são dirigidas, corre para ele louca de amor e, para sua desgraça, é por Narciso repudiada:

Tira as mãos de cima de mi! Antes morrer do que entrgar-me a ti!
Repudiada, esconde-se nos bosques, e, com a vergonha, oculta o rosto na folhagem. E desde então vive em grutas solitárias. Todavia, o amor permanece e cresce com a dor da repulsa.
Os cuidados das insónias emagrecem o lastimável corpo, a magreza engelha-lhe a pele, e toda a humidade do corpo evola-se para os ares. Somente restam a voz e os ossos: a voz ficou; os ossos, dizem, tomaram o aspecto da pedra.

Eco é um duplo de Narciso: a figura da repetição. A voz de Eco e o reflexo de Narciso na água são uma e a mesma coisa: o ser humano condenado à morte, à petrificação, isto é, à superfície enganadora do mundo.