Tradução de Rui Bertrand Romão, 2009.
Os Ensaios de MONTAIGNE (1533-1592) são, na época, umas obra de uma extrema inovação e ousadia.
A matéria do livro, diz o autor, é ele próprio, sendo assim considerado, depois das Confissões de Santo Agostinho, escritas onze séculos antes (397-398), o segundo criador do género autobiográfico. A primeira edição, de 1558, é um imenso sucesso.
O tom simples, isento de falsos pudores, o desejo de se conhecer a fundo, sem máscaras, faz deste livro uma obra invulgar.
Os assuntos mais variados são abordados, política, guerra, religião, sexo, amor, casamento, vaidade, amizade-, mas sempre observados a partir de uma lente despida de preconceitos, que não faz concessões ao bom gosto, à moral vigente, ao politicamente correcto da época.
A parte que referimos no programa faz parte do Livro I, nomeadamente, dos capítulos “Dos Livros” e “De três espécies de convivência”.
Recusando o epíteto de sábio ou douto, Montaigne faz o elogio de uma sã ignorância. Assim, diz dos doutos que “o saber que não lhes chegou ao espírito, ficou-lhes na língua” (p.63).
Numa época, como a que vivemos ( em muitos aspectos semelhante à sua), em que se defende tanto a rentabilidade e se batalha contra a inutilidade, diz ele: não vivo senão para mim: os meus desígnios não visam outra coisa. Jovem, estudava por ostentação; mais tarde, para me tornar sábio; agora, para me divertir, nunca pelo proveito (p.75).
Eis as palavras de um homem que foi presidente da Câmara de Bordéus por duas vezes, um político influente, magistrado do Parlamento de Bordéus, hábil diplomata, que viveu numa época, tão promissora pelas novas descobertas, como angustiante pelas lutas religiosas que mergulharam a Europa num banho de sangue.
Fiel aos seus filósofos estóicos e epicuristas, Montaigne, com extremo e refinado humor, defende que não há outro sentido para a vida que não seja procurar vivê-la e gozá-la na sua simplicidade:
poucas conversas, pois, me retêm a atenção, senão possuem vigor ou força. Verdade é que a elegância e a beleza me preenchem e me ocupam tanto ou mais que a gravidade ou a profundidade (p.59).