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MONTAIGNE

Montaigne 2

 

 

 

Tradução de  Rui Bertrand Romão, 2009.

 

A propósito da máxima de OSCAR WILDE sobre a maioria das pessoas existir e não ser capaz de viver, o escritor e político MONTAIGNE (1533-1592) escreveu uma obra, os Ensaios, que podíamos definir como uma espécie de Manual da da Arte de Bem Viver.

A novidade deste género literário- praticamente uma invenção deste escritor-político famoso do seu tempo, nascido em Bordéus- tem a ver com a sua dimensão autobiográfica, que se afirma na época do humanismo Renascentista.

Os Ensaios de Montaigne partem de uma postura essencialmente autobiográfica: todos os assuntos -política, guerra, religião, sexo, amor, casamento-, são filtrados por um espírito que se revela e se desvenda sem falsos pudores, tratando qualquer tema com a mesma franqueza, naturalidade e profundidade.

Neste livro- um capítulo dedicado à amizade-, Montaigne, como acontece sempre quando versa sobre um determinado assunto, vai discorrendo sobre assuntos e temas próximos.

Nas passagens que se seguem defende, precisamente, que só fazemos bem o que está de acordo com a nossa natureza, isto é, com o que está próximo de nós:

Nada faço sem alegria, e a persistência, assim como a contenção excessiva, obnubila-me o juízo, contrista-o e afadiga-o e a minha vida torna-se então confusa. e turva.

Devemos encaminhar os nossos desejos às coisas que nos são mais fáceis e próximas e nelas nos fixarmos.

Se, quando leio, encontro dificuldades, não roo as unhas. Por isso; após duas ou três investidas, deixo-as onde estão. Se as ficasse a remoer, perder-me-ia nelas perderia o meu tempo, pois tenho um feitio impulsivo. Aquilo que não vejo à primeira carga, ainda menos o vejo em me obstinando.