Molière, O Doente de Cisma
Lello &Irmão, Editores Porto, Tradução de Guedes de Oliveira
Pois ironia do destino, MOLIÈRE (1622-1673), criador da comédia em França, encenador e autor, morreu no palco, em 1673, a representar o papel principal da peça, O Doente Imaginário. Imaginar uma morte mais adequada a este imaginativo autor seria impossível.
Argão, o hipocondríaco, é um dos seus célebres heróis cómicos, cego por uma paixão, isto é, uma obsessão, uma ideia fixa que faz dele uma personagem típica de comédia: o eterno enganado. Pela mulher mais jovem, pela deliciosa empregada Antónia, que, percebendo a cegueira de que é vítima o patrão, tira dela todo o potencial cómico, enganando-o descaradamente, e por muitos outros ainda, entre os quais estão, naturalmente, os médicos.
Argão não está apenas sujeito à mania das doenças; sofre ainda de um outro mal, a avareza (Molière é também o autor da comédia deliciosa, O Avaro), motivo que o leva a querer casar a sua filha, não com o seu apaixonado, mas com um médico, pois com um médico sempre à mão, pouparia um dinheirão.
Temos, assim,presente, mais um dos temas caros à comédia- o amor contrariado-, mas temos, sobretudo, uma sátira feroz contra a medicina, protagonizada pelo irmão de Argão, Beraldo, que defende:
A Natureza, se a deixarmos operar, lá se irá tirando pouco a pouco da desordem em que caiu. A nossa inquietação, a nossa impaciência é que deita tudo a perder. Olhe, os homens morrem mais dos remédios que tomam, que das doenças que lhes vêem.
