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O fantasma de Canterville, Oscar Wilde, Colares Editora, 1998, tradução de M.A.Ferreira
Este conto, delicioso, tem passagens de uma ironia maravilhosa. Eis uma delas, uma resposta do intrépido Senhor Otis ao dono do castelo, quando este lhe diz para pensar melhor antes de se aventurar na compra:

 

Meu Caro senhor- retorquiu o americano- venho de um país onde tudo se adquire com dinheiro. Os meus compatriotas, activos e diligentes como são, têm levado para a nossa terra tudo o que há no velho mundo, a começar pelas melhores e mais celebres actrizes; se, realmente houvesse fantasmas na Europa, eles não deixariam de os adquirir para os nossos museus.
E a propósito dos medos e da Ansiedade da Antecipação, isto é, a forma como o medo de alguma coisa acaba por provocar o aparecimento dessa “coisa”,
aproveito para contar uma história extremamente divertida de Óscar Wilde: O crime de Lorde Artur Savile.

oscar wildeLorde Artur é um jovem aristocrata inglês, apaixonadíssimo por Sibila Merton, com quem vai casar muito em breve. Uma noite é convidado para a recepção de uma amiga, Lady Windermere, um bela mulher de quarenta anos que, de natural aventureiro e tendo um profundo pavor pelo tédio, procura todas as formas de o contornar com sucessivos casamentos e amizades exóticas.

Nessa noite tem, para divertimento dos convidados, Podgers, um quiromante. Não descansa enquanto não o apresenta aos amigos e o obriga a ler as mãos de todos. Uns, desconfiados e atemorizados pelo que vão observando- com efeito, ele parece acertar em tudo- não se prestam ao jogo. Chega a vez do Lorde Artur.

Quando o quiromante lhe pega na mão, empalidece, começa a suar e não consegue pronunciar uma palavra. Lady Windermere, mulher que não se deixa atemorizar facilmente e leva a vida de forma leve e risonha, insiste para que ele diga alguma coisa. Podgers, muito a custo, acaba por murmurar uma série de banalidades. Lorde Artur percebe que algo de estranho se passa e na primeira oportunidade chama o quiromante e pede-lhe para lhe contar o que de terrível vira na mão para ficar tão transtornado. Podgers recusa, mas perante o cheque que o Lorde Artur lhe apresenta, conta tudo.

O que lhe anuncia então o quiromante?
Que ele cometerá um assassínio, isto é, Lorde Artur constará da lista dos criminosos.

Se o Lorde não estivesse louco de amores por Sibila, talvez a sua reacção fosse diferente. Acontece que, de casamento marcado e loucamente apaixonado, sente que terá de cometer primeiro o assassínio de forma a ficar liberto dessa acção e poder casar-se sem a sombra do crime que teria de cometer. Naturalmente, o crime tem de ser realizado sem deixar rasto, de forma a libertar-se da profecia sem consequências.

Começa aqui a parte divertida, típica de Óscar Wilde. Lorde Artur decide fazer a lista das pessoas que poderá matar sem problemas: a primeira vítima é uma parente afastada e já velha que sofre de coração. Dissolve, então, uma dose de veneno num remédio para o coração e oferece-lho, recomendando-o vivamente como o milagre mais recente para os problemas cardíacos. Umas semanas depois é-lhe anunciada a morte da prima, uma morte natural, durante a noite, dizem-lhe. A prima deixara-lhe os seus bens em testamento e quando, com Sibila, vão a casa dela para fazerem o inventário do recheio, esta dá com a tal caixinha em que Lord Artur tinha colocado veneno. Que estava lá, intacto! A prima tinha morrido de morte natural, sem ter provado o veneno.
Lorde Artur ficou aterrorizado. A profecia continuava, assim, em cima da sua cabeça. Estar inocente era a pior calamidade que lhe podia acontecer.

Volta a fazer uma nova lista e a pensar numa estratégia mais eficaz. Desta vez a vítima escolhida foi um tio, deão de Chichester e a arma seria um explosivo. Escolhe um relógio explosivo e envia-o ao tio. Esperou ansioso notícias da sua morte, mas nada. O relógio não explodiu e o tio continuou vivo e de boa saúde. Veio a saber que todos em casa do tio tinham achado muita graça aquela oferta de um admirador anónimo do deão. Porquê? Porque a determinadas horas dava um sinal que se assemelhava a uma mini-explosão e a família descobriu que se o acertasse para determinada hora, dispararia nessa altura e serviria assim de despertador.

Ironia das ironias, Lorde Artur sabe disto pela prima, filha da desejada vítima que escreve à sua mãe a perguntar-lhe se o primo não gostaria de um relógio daqueles como prenda de casamento, tamanha era a originalidade de tal invento!

O estado do pobre Lorde não podia ser mais lamentável. O que fazer? O desapontamento, a frustração, levam-no nessa noite a deambular por Londres, desesperado por tantas tentativas goradas, atormentado com a profecia, aterrado com a ideia de o adiamento do casamento poder, de alguma maneira, levar Sibila a desistir dele. Até que, já a altas horas da noite, vê numa ponte um homem debruçado, a olhar o rio. Surpresa das surpresas, depara com o quiromante! Lorde Artur Savile não pensou duas vezes. Agarrou-o pelas pernas e lançou-o ao Tamisa. Aliviado, regressa a casa e três semanas depois casa-se, vivendo um casamento perfeitamente feliz.

Oscar Wilde, O crime de Lorde Artur Savile, e outros contos, Relógio d’Água, ( co. BI), 2007, Tradução de Vergílio Mendes e Cabral de Nascimento.