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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

 

 

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996) diz da poesia:

para mim, poesia é, antes de mais, linguagem; mas linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo, transfigurada pela metáfora  ( no Prefácio da Antologia Poética).
Uma definição tão breve como luminosa sobre a arte poética.

David Mourão-Ferreira é o poeta do amor, intimista, solar, o poeta-“fadista”, mas também o poeta da cidade, e da cidade de Lisboa em particular.

O poema, Ladainha Horizontal faz parte do livro de poesias Os quatro cantos do Mundo, de 1958. Deste livro, destaco o poema Capital para irmos memorizando como um Ladainha, na posição que bem entendermos, mais ou menos horizontal

 

 

CAPITAL

Casas, carros, casas, casos.
Capital
encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos… Carros, casas…
Capital
acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas…
Capital
acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital,
oh! capital,
capital
decapitada!