GAL

Casanova

 

Este relato da fuga foi publicado pela primeira vez em 1788, redigido em francês, a língua em que escreveu as suas Memórias, a que deu o nome História da minha vida.
Nas páginas introdutórias deste relato, Casanova demarca-se por mais de uma vez, da ideia de poder passar por gabarola.Diz:

Disposto a escrever a história da minha fuga das prisões do estado da República de Veneza a que chama os Chumbos, creio, antes de entrar na matéria, dever prevenir o leitor quanto a um artigo relativamente ao qual poderia decidir exercer a sua crítica. Não se aceita bem que os autores falem muito de si próprios, e na história que vou escrever falo de mim constantemente. Rogo, pois, ao leitor que se dsponha a conceder-me essa autorização, e asseguro-lhe que em nenhum momento me achará a tecer elogios a mim mesmo, porque, graças a Deus, no meio de todas as minhas desgraças, sempre me reconheci como primeira causa delas.

É esta atitude de Casanova que nos permite entender ainda outras passagens, que poderiam parecer surpreendentes:
Se, em algum lugar da história que conto, se encontrar qualquer vestígio da amargura, contra o poder que me deteve e, que por assim dizer, me forçou a entregar-me aos riscos a que me expôs a execução do meu projecto, declaro que as minhas queixas não podem ter outra origem senão a pura natureza, pois que nenhum azedume preocupa o meu coração ou o meu espírito para que elas possam ter nascido do ódio ou da cólera. (…) Naquela altura não aprovei a minha detenção porque a natureza não mo permitiu; mas aprovo-a hoje em vista do efeito que em mim causou e da falta que tinha de uma correcção para a minha conduta.